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A predileção ao mau gosto


"A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio."

A conhecida frase dita por Ariano Suassuna nos remete a uma inevitável reflexão sobre o estado hipnótico inegável que o brasileiro médio vive em relação ás artes. O popular nunca antes aceitou tamanha mediocridade artística em todas as áreas da matéria, seja na literatura, nas artes cênicas ou na música. Focaremos na última; sua decadência acompanha a trágica condução educacional que desvaloriza a língua e seus defensores tradicionais, refletindo claramente este descaso no trabalho dos compositores cada vez mais pobres em suas composições. Porém, cabe a mim discordar em parte do escritor paraibano em sua afirmação, tendo em vista que os últimos quarenta anos de produção artística nacional influenciados e produzidos por mal intencionados agentes político- militantes, quase por completo eliminaram o chamado "gosto médio", já que a única obra "empurrada" as massas, só pode ser classificada como puramente de mau gosto, transformando este assim no próprio gosto intermediário.


Se os movimentos musicais "sessentistas" e "setentistas" iniciavam o projeto maquiavélico absolutista de domínio do meio, ao menos se escoravam artisticamente na base deixada por seus antecessores, cantores e compositores das décadas de quarenta e cinquenta que influenciados por um passado virtuoso, inegavelmente lhes cederam a bagagem necessária para comporem sua personalidade musical, claro também, absorvendo toda música estrangeira cada vez mais presente. O fato é que os artistas que tomaram o poder como os donos da verdade na musica brasileira, não eram de fato os preferidos do gosto popular. Sua imposição se deu juntamente a sua atividade política e ao crescimento da atuação esquerdista dentro da mídia e o advento da televisão, que vulgarmente falando, trabalhava na lavagem cerebral diária a promoção de seus "queridinhos", apropriando- se dos ritmos tradicionais brasileiros como se fossem seus verdadeiros defensores ou até mesmo criadores.


O que se deve lamentar, é que mesmo com todo dano causado a cultura tupiquinim, a obra destes coronéis da MPB ainda traziam os resquícios de um Brasil rico em termos musicais. Independente do teor subliminar de suas letras, em grande parte delas se encontravam poesias de bom nível e músicos competentes, o que definitivamente não encontramos mais na musica divulgada pela mídia como popular. Isto posto, não pretendo aqui isentar da culpa pelo atual cenário os mesmo senhores hoje já septuagenários. O absoluto monopólio midiático que a rede criada por eles alcançou, lançou a margem mesmo os que compartilhavam de seu pensamento político mas que por N motivos se negaram a "beijar lhes a mão" para conseguir sucesso. Esta pequena grande máfia, acabou por restringir os que entregavam seu talento a um bem maior, sem visar a fama ou o poder, jamais sairiam do ostracismo em suas carreiras se antes não pagassem o pedágio ideológico imposto, nivelando a música popular da seguinte forma: os abnegados talentosos reclusos , e aqueles que sabiam jogar o jogo, talentosos ou não.


Com tudo, seria somente o brasileiro vitima solitária do aparelhamento midiático influente em seus próprios gostos artísticos? Creio que não.


Uma nova reflexão de simples assimilação pode ser feita.


O ser humano tem por hábito a procura do fácil, é condicionado ao atalho, ao simples. Poucos proporcionalmente são os que se dobram sobre o entendimento de seja lá o que for, e isto é potencializado quando o nível cultural de um povo é ínfimo. Manobrar o povo brasileiro de um lado a outro é muito fácil, não há base cultural construída para o entendimento, para a negação. Aceitamos o que nos é imposto sem discutir, repetimos uns aos outros o que vemos na TV como se fosse a verdade sagrada e absoluta dita pelo próprio Jesus Cristo. Somos atrasados culturalmente e isto até o mais inculto brasileiro já sabe.


Porém, chamo atenção a um acontecimento ocorrido na Inglaterra lá pelo final dos anos setenta. Usando o rock and roll e seus inúmeros gêneros como exemplo, lembro que durante toda esta década havia não um domínio, mas sim uma forte presença do rock progressivo nas ditas paradas de sucesso. Bandas como Pink Floyd, Emerson, Lake and Palmer, King Crimson, Yes, Genesis, Jethro Tull e etc, recheadas de bons músicos oriundos do erudito, levavam um pouco do estilo clássico ao popular do país (e do mundo) através do rock. Músicas de quinze, vinte minutos com arranjos elaborados, instrumentos atípicos e letras poéticas muitas vezes adaptadas de passagens do folclore britânico com maestria, tomavam conta do gosto popular e ajudavam a despertar o interesse inclusive na literatura por eles tão propagada.


Até que então, chegamos a 1977. Não pretendo me aprofundar no cenário político do país, apenas cabe a lembrança de que o primeiro ministro no período era James Callaghan, membro do partido trabalhista e ex-líder sindical, (já vimos algo parecido não é mesmo?) quando uma mudança oportuna nos rumos do popular inglês aconteceria. Com a justificativa de que os jovens estariam saturados da pompa progressiva e seu instrumental extenso, um empresário do ramo ligado também ao mundo da moda (Era dono de uma boutique chamada "Sex") tem a auspiciosa ideia de lançar uma banda que iria ao sentido contrário do mainstream atual. Seu nome era Malcolm McLaren, e a banda em questão era o Sex Pistols.


O Sex Pistols chegariam com seu nome de terrível mau gosto do qual não é necessária a tradução, e ostentando o mesmo mau gosto como símbolo revolucionário. É conhecido o fato de seus membros não saberem tocar seus instrumentos assim como seu vocalista não era de fato cantor, e isto era e é repetido até hoje como um marco na música! Suas roupas (não por acaso baseadas no estilo de moda da tal boutique Sex)eram jaquetas de couro, calça rasgadas e botas, tudo com proposital aparência desgastada e completadas por cabelos coloridos e piercings. Tudo é claro regado a muito álcool e drogas pesadas. Não que seus antecessores do progressivo fossem alguma espécie de santos imaculados, pelo contrário. Lembro que a análise está sendo feita dentro da subcultura do rock, onde as drogas são elemento presente, o fato é que os Pistols elevaram o "hábito" a estratosfera, espalhando um rastro de anarquia e confusão por onde quer que se apresentassem. Junte todas estas condições a um país em crise, a trilha sonora do caos estava pronta e o rock progressivo com todo seu virtuosismo praticamente desapareceria por bons anos. O movimento punk iniciado com os Sex Pistols nos porões de uma boutique de moda discutível, tomaria a Inglaterra sendo seguido por uma porção de bandas parecidas que ostentariam pelo resto da Europa e logo pelo mundo, o mau gosto como estilo. Não era preciso saber tocar, nem cantar, muito menos se fazer entender. O barulho era a nova moda e a estética da esquerda estava posta.


Não era o Brasil, o inglês médio é mais culto do que éramos e do que somos, e mesmo assim a juventude foi tomada pelo mau gosto num rompante explosivo. Então, qual a diferença? A predileção.


Por mais que aquela realidade de mau gosto tivesse sido implementada com sucesso na juventude inglesa, a estrutura cultural a séculos alicerçada na ilha logo venceria. Com a renovação conservadora protagonizada pela líder do partido conservador Margaret Thatcher dois anos depois, gradativamente o movimento punk perdeu força e a ordem foi reestabelecida restringindo os punks novamente ao gueto, onde permanecem até hoje sem grande relevância cultural.


Por tanto, a questão voltando ao Brasil seria: Quantos anos levaríamos nós, tão acostumados ao mau gosto, para construir um alicerce cultural homogêneo o suficiente para revertê-lo?


Douglas Alfini

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